Bombeiros e Samu: campeonato fúnebre ou heróis da tragédia urbana?*
Nos últimos cinco anos, o Brasil tem observado uma mudança na tendência de queda nos acidentes de trânsito. Mesmo com a instituição da Lei Seca, o número de mortos na violência das ruas e estradas voltou a subir, contrariando uma vitória história obtida com o novo Código de Trânsito, a partir de 1998. Sem nenhum demérito ao inestimável trabalho que prestam os socorristas urbanos, o pensamento adotado pelo poder público deve ser tratar as causas e não apenas despejar dinheiro nos efeitos e consequências.
Parece bonito ver estampado na imprensa belíssimos anúncios de inaugurações de UPAs 24 horas e novas unidades do SAMU e notícias do belo trabalho prestado por nossos bombeiros, mas não pode ser assim. Vejam a edição do Jornal O Popular do último dia 17 de junho de 2010 e reflitam sobre a ironia. Na capa, a foto estarrecedora de um pai dilacerado pela dor da perda de um filho de apenas 21 anos em um acidente de trânsito nas ruas de Goiânia; na página seguinte, um grande anúncio do Ministério da Saúde sobre a inauguração de novas unidades de socorro, transmitindo falsamente bem estar, saúde e usa até a frase: “Mais agilidade e eficiência para todos os brasileiros”.
É o Brasil com mais saúde? Se no mínimo 90% das chamadas não fosse para atender a tragédia do trânsito justificaria e ainda não seria necessária tanta quantidade e sim o máximo de qualidade. Os acidentes têm um impacto econômico gravíssimo na sociedade. Estudo do Ministério do Planejamento, de 2008, revelou que o Brasil gasta anualmente cerca de R$ 92,2 bilhões com vítimas de acidentes externos, maior parte deles trânsito. Imagine essa economia com atendimentos, transporte, internações e, por fim, indenizações e INSS utilizada de outras formas, como a compra de novos equipamentos médicos ou a implantação de uma rede pública eficiente de odontologia, um dos pontos mais fracos do Sistema Único de Saúde (SUS). Além disso, as faixas etárias mais afetadas são as dos 20 aos 39 anos (45%) e dos 40 aos 59 anos (26%), ou seja, idades produtivas. São jovens e pais de família - 85% dos mortos é do sexo masculino – que deixam de produzir no período mais crucial do sistema econômico.
No aspecto social, SAMU e bombeiros não podem continuar com esta funesta imagem de limpeza, recolhendo dia e noite nossos mortos e mutilados. São heróis da dor e do desespero. Já chegamos ao absurdo de nos acostumar e achar que isso é assim mesmo e que não tem jeito! Mas tem jeito! Basta o povo abrir os olhos e eleger políticos comprometidos, fichas limpas, patriotas e atenciosos aos problemas do país! É preciso eleger aqueles que realmente se preocupem com o bem coletivo maior e dar um basta em governos e agentes públicos populistas, enganadores e insensíveis a tantas mazelas que atingem nossas famílias.
Jair Cunha, é ex-presidente do Sindicato dos Corretores de Seguros, de Capitalização e de Previdência Privada no Estado de Goiás (SINCOR-GO) e um dos fundadores do Sicoob CredSeguro
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* Artigo publicado no Diário da Manhã de segunda-feira, 21 de junho de 2010.
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